Você merece!
Ontém eu me peguei dizendo isso: EU MEREÇO. E me soou tão pouco familiar...
O auto merecimento para mulheres negras é um tema fundamental dentro do processo de autoestima e pertencimento. Mulheres negras foram socialmente ensinadas a não se reconhecerem como merecedoras de sucesso, de amor e de respeito, devido à intersecção de questões raciais, de gênero e de classe. A história de desvalorização e opressão nos colocou em uma posição de constante questionamento sobre nosso valor, o que, muitas vezes, nos faz duvidar de nosso direito à felicidade, à prosperidade e ao cuidado.
Auto merecimento é o ato de reconhecer o próprio valor independentemente de validação externa. É entender que, apesar das dificuldades impostas pela sociedade, uma mulher negra tem o direito de ocupar seu espaço de forma plena e sem pedir desculpas por isso. Para mulheres negras, esse reconhecimento é ainda mais significativo porque, historicamente, elas foram marginalizadas tanto dentro da comunidade negra quanto na sociedade em geral. A construção do auto merecimento, portanto, passa pela ressignificação de seu lugar no mundo, por uma reconstrução da autoimagem que desafie os estereótipos e as expectativas limitantes.
Tomemos como exemplo Conceição Evaristo, escritora e poetisa negra, que tem se dedicado a criar obras que falam da realidade da mulher negra, abordando as dificuldades, mas também a força e a resistência de suas personagens. Ela, como tantas outras, teve que se afastar da narrativa opressora e se afirmar como mulher e escritora. Seu auto merecimento é refletido nas suas palavras, que ressoam com outras mulheres negras que se veem refletidas nas suas histórias. Evaristo é um exemplo de como o auto reconhecimento é uma prática constante, que exige coragem para confrontar a visão que a sociedade impõe e, acima de tudo, para aceitar que somos dignas de ocupar qualquer lugar que escolhemos.
Além disso, o auto merecimento também é algo que se pratica no dia a dia, com gestos de autocuidado, de afeto próprio e de decisão de se colocar em primeiro lugar. Isso significa dizer "não" quando necessário, cuidar da saúde mental, se afastar de ambientes tóxicos e reconhecer os próprios limites e necessidades. Mulheres negras precisam, cada vez mais, criar espaços de proteção onde possam se sentir acolhidas em sua totalidade e plenitude, sem sentir a pressão de ter que se moldar a padrões alheios.
É também importante lembrar que o auto merecimento está intrinsicamente ligado ao amor próprio. O ato de amar a si mesma é um ato de resistência. Quando uma mulher negra se ama, ela está não apenas afirmando sua própria dignidade, mas também desconstruindo a narrativa histórica de que ela não é digna de cuidados, de sucesso ou de respeito. Ela se coloca como prioridade, sabendo que seu valor não depende da validação externa, mas é intrínseco ao seu ser.
Em um contexto mais amplo, o auto merecimento das mulheres negras também se reflete no pertencimento coletivo. Quando uma mulher negra se reconhece como merecedora de tudo o que há de bom na vida, ela também fortalece a comunidade ao seu redor, inspirando outras mulheres a fazerem o mesmo. O movimento de auto valorização individual tem um impacto transformador em uma sociedade que ainda luta para reconhecer a igualdade e a justiça para todas as pessoas, especialmente as mulheres negras.
Pra resumir, o auto merecimento para uma mulher negra (como eu) é um caminho contínuo de resistir e se afirmar: pro mundo e pra si mesma. Ao reconhecer o meu valor, não só desafio as narrativas opressoras, mas também abro o caminho para que as próximas gerações se sintam igualmente merecedoras e confiantes em sua identidade e potencial.
Lorena, você merece!
Madu, Aline, Karol, Aline, Lucimara, Thalita, Luana, Gabriela, Liz, Raissa, Cristiane e você que me lê: VOCÊ MERECE.
Um beijo,
Lorena <3

